Sleep Has Her House (Scott Barley, 2016)




Sleep Has Her House abre com o aviso que é necessária completa escuridão para acompanhar o filme. Não se trata de um pedido e sim de uma imposição. Ela vai de encontro às condições que os filmes são vistos hoje, muitas vezes amputada por um aviso do telefone celular, desconexa e desconcentrada. A experiência necessita desta condição extratela. Tal aviso se completa com a cartela que norteará o filme dirigido por Scott Barley: a relação com ilusão e desaparecimento. O que está por vir é uma viagem sensorial com diálogo pré-estabelecido com uma espécie de mundo reconhecível e com diálogo direto com o cinema digital.

São paisagens, mas antes de tudo, formas. Elas ganham novas proporções e significados conforme passam pelo processo de mutação. São montanhas, mas podem ser fantasmas. O tom onírico dessas paisagens elevam a sensação de desespero e significado do espaço filmado/criado. Assim como James Benning, Jem Cohen e Nikolaus Geyrhalter, para citar alguns nomes, Scott Barley faz da observação seu gatilho para remodelação de espaço e tempo. Sleep Has Her House é um jogo perverso de criação e manipulação de certezas, usando o cinema como grande hipnose.

Da bonança à tempestade, onde jogamos a trama de Cavalo de Turim de Béla Tarr fora e ficamos apenas com as sensações angustiantes, principalmente em seu último ato, Sleep Has Her House brinca com duplicidades a todo instante; céu e inferno, vida e morte, proximidade e distância. Há em cada sequência um diálogo direto com a sensação de estar vivo e o terror que isso trás; perseguidos pelo exagero, pela escuridão, pelo vento. São essas as conexões do filme, que explora o princípio básico do cinema - o corte -, usando-o para o início e fim de cada história e de cada intenção. 

Assim como a vida, no filme há o senso de unidade sem que tudo pareça utópico, cristalino, perfeito. Abstração neste caso é o caminho acertado; tão acertado que não poderia ilustrar melhor este híbrido de sensações. É a ilusão que toca o céu, este que também é ceifado por um raio; o sonho de pegar o vento com as mãos e fugir do escuro à espera de um grito que há de surgir. Tudo está em função da fantasmagoria dos códigos que a imagem impõe e seus questionamentos levantados pela manipulação. 

É o que segura Sleep Has Her House ante à superfície: a certeza que sempre surgirá a saída entre tantos horrores. Este o maior diálogo com o seu espectador sem que precise da perversidade, sem que necessite de uma grossa camada de pessimismo e razão. Pois apesar da afirmação de um mundo onírico, sempre haverá a duvida que este é sim um pesadelo, um filme de terror, enfim, cinema. E neste gesto Barley entroniza o corte e as sensações utilizando suas antíteses: os planos fixos e sequenciais, sempre a lembrar que cinema é sonho. E pesadelo.

ENGLISH VERSION

Sleep Has Her House opens with notice that complete darkness is required to accompany the movie. It is not a request but an imposition. It goes against the conditions that movies are seen today, often amputated by a cell phone warning, disconnected and deconcentrated. Experience needs this condition extratela. Such a warning is completed with the card that will guide the film directed by Scott Barley: the relationship with illusion and disappearance. What is to come is a sensory journey with pre-established dialogue with a kind of recognizable world and direct dialogue with digital cinema.

They are landscapes, but above all, forms. They gain new proportions and meanings as they go through the process of mutation. They are mountains, but they can be ghosts. The dreamy tone of these landscapes heightens the sense of despair and meaning of the filmed / created space. Like James Benning, Jem Cohen and Nikolaus Geyrhalter, to name a few, Scott Barley makes observation his trigger for space and time remodeling. Sleep Has Her House is a perverse game of creation and manipulation of certainties, using the cinema as great hypnosis.

From the bonanza to the storm, where we played the plot of Béla Tarr's Turin Horse and left us with only the distressing sensations, especially in its last act, Sleep Has Her House plays with duplicities every moment; Heaven and hell, life and death, closeness and distance. There is in every sequence a direct dialogue with the feeling of being alive and the terror it brings; Persecuted by the exaggeration, by the darkness, by the wind. These are the connections of the film, which explores the basic principle of cinema - the cut - using it to the beginning and end of each story and every intention.

Just like life, in the film there is the sense of unity without everything looking utopian, crystalline, perfect. Abstraction in this case is the right path; So successful that it could not better illustrate this hybrid of sensations. It is the illusion that touches the sky, which is also reaped by lightning; The dream of catching the wind with his hands and running away from the dark waiting for a cry to come. Everything is due to the phantasmagoria of the codes that the image imposes and its questions raised by the manipulation.

It is what holds Sleep Has Her House to the surface: sure that there will always be the way out of such horrors. This is the greatest dialogue with your viewer without needing the perversity, without needing a thick layer of pessimism and reason. For despite the affirmation of a dream world, there will always be the doubt that this is rather a nightmare, a horror film, in short, cinema. And in this gesture Barley enthroned the cut and the sensations using its antithesis: the fixed and sequential plans, always remembering that cinema is dream. And nightmare.

Versão em inglês traduzida pelo diretor Scott Barley. Versão em português originalmente publicada no Cineplayers.

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